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História da Hungria

Mil anos de história húngara

Por trás de séculos de migração, o povo magiar chegou das estepes da Europa Oriental para sua pátria definitiva: a Bacia dos Cárpatos, o lugar onde havia sido constituído o Império Avaro. Depois da Conquista da Pátria, ocorrida no ano 896 pelo príncipe Árpád, o povo húngaro rapidamente abandonou o modo de vida nômade, adotando a agricultura e pondo fim também às perseguições no ocidente, resultado da derrota que lhe impuseram as tropas do Imperador Romano Germânico Oto I, em Augsburgo. Por iniciativa do grande Príncipe Geza, já no ano de 955 começou uma aproximação com as nações e a cultura da comunidade dos Estados cristãos ocidentais. Géza, a quem os cronistas ocidentais chamavam rei (“rex”), em 973 enviou uma delegação à Dieta Imperial Alemã, convidou para uma visita a sua corte o bispo de Praga, que mais tarde, em uma viagem de evangelização, foi assassinado por prussianos pagãos, e contribuiu para a fundação do monastério beneditino de Pannonhalma, depois rebatizado de São Martin, além de ter sido batizado e ao mesmo tempo conservando seus costumes pagãos.

Seu filho Vajk, que foi batizado com o nome de István (Estevão), já foi educado para ser um monarca cristão, sendo lhe dado como esposa a filha mais velha do Rei Henrique II da Baviera, chamada Gisela. No ano 1000 Estevão foi coroado com uma coroa do Papa Silvestre II, e concluiu a construção do Estado iniciada por seu pai. Fundou dez dioceses, vários monastérios, igrejas e organizou a administração pública dos condados reais, derrotou os chefes tribais que queriam continuar conservando a religião pagã e defendeu seu país frente aos ataques vindos do ocidente. Guiou seu povo para o conjunto de nações da Europa cristã e criou o Reino da Hungria. Com toda razão o seu sucessor, o Rei Ladislau, o elevou a condição de santo da igreja, juntamente com o herdeiro de Estevão morto prematuramente, o príncipe Emerico e o bispo Gellért (Geraldo), que morreu como mártir nos acontecimentos da sublevação pagã de 1046.

As origens de nossa cultura e literatura vêm das tradições orais transmitidas pelo povo ou dos primeiros sinais da cultura escrita perdidos em tempos mais remotos. Somos herdeiros de numerosas lendas históricas relativas à procedência dos húngaros, e da sua migração para a conquista da pátria. Provavelmente, o idioma húngaro remonta a um passado maior do que nos indicam os atuais indícios conservados, já que a cultura eclesiástica e cortesã tem um passado de quase mil anos, e desde que Santo Estevão, o primeiro rei dos húngaros, aderiu junto com seu povo ao cristianismo ocidental, nos conventos e chancelarias reais aumentava constantemente o número de pessoas que sabiam ler e escrever, embora na época fosse utilizado em primeiro lugar o latim em toda a Europa medieval. No entanto, talhados em pedra (por exemplo, os templos da Transilvânia), se conservaram algumas evidências da antiga escritura rúnica dos pagãos. Muito cedo surgiram também textos no idioma húngaro, escritos com o alfabeto latino. Depois de algumas evidências esporádicas, em meados do século XII aparece o nosso primeiro texto em prosa: o “Halotti beszéd” (Discurso mortuário), uma tradução ao idioma húngaro de uma oração fúnebre em latim. Um século mais tarde, aparece o primeiro poema em húngaro, o “Máriasiralom” (Lamentação de Maria), criado também com base no original latino. Depois desses vieram traduções da Bíblia, lendas sobre a vida dos santos húngaros, sermões e outros textos eclesiásticos, enquanto que o latim seguiu sendo por muito tempo o idioma das escrituras laicas: das obras históricas e dos diplomas.

Os húngaros criaram sua própria cultura nacional através da mistura de duas grandes culturas: do leste adquiriram suas tradições originais da cultura ancestral da região das estepes da Eurásia, e como conseqüência do sincero compromisso cristão e da sensata visão da situação política de seus primeiros reis, aceitaram e abraçaram a cultura ocidental e somente um século depois de seu estabelecimento na Cadeia dos Cárpatos, encontraram seu lugar entre as nações ocidentais. O idioma húngaro pertence a família das línguas fino-húngaras, os parentes dos magiares são os finlandeses, estonianos e vários outros povos pequenos que vivem no atual território da Rússia, nos montes Urais e na região do rio Volga. Ademais, a sua procedência étnica também une os húngaros aos povos turcos da Ásia interior, assim como as melodias originais de suas músicas e sua arte decorativa também possuem origens turcas. Ao conviver com a cultura ocidental, assimilando a espiritualidade e os valores da civilização cristã, a herança cultural trazida do leste somente se conservou nas raízes mais profundas da cultura, principalmente no idioma húngaro, onde não só o seu vocabulário básico e sua gramática o une a cultura dos povos orientais, mas também seu caráter poético, capaz de criar mitos.

Com tudo isso a nação húngara se converteu em uma nação completamente ocidental, cuja evolução se deu graças aos sucessores cultos e de pulso firme de Santo Estevão: São Ladislau e Kálmán “o bibliófilo”, Béla III e Béla IV. Desempenharam um papel similar, além de levar a cabo a grandiosa tarefa de transformar a Hungria em uma grande potência medieval os monarcas da dinastia Angevina: Carlos Roberto e Luís O Grande, que também era rei da Polônia, e assim controlava um império enorme.

A Hungria histórica, rodeada pelas montanhas dos Cárpatos, era a zona fronteiriça e o último baluarte da civilização ocidental: ao sul se encontrava o Império Bizantino, representante do cristianismo oriental, tomado logo em seguida pelo Império Turco muçulmano; a oeste estavam os tártaros e a potência mundial russa. Naqueles tempos a Hungria era uma grande fortaleza do cristianismo ocidental: a dinastia real posterior ao conquistador do território pátrio, Árpád, deu mais santos a igreja que qualquer outra instituição católica, e os cavaleiros e reis húngaros participaram nas cruzadas para a terra santa, ao mesmo tempo em que o país desempenhava o papel de missionário e transmissor cultural desde o leste até o sul. Nos séculos da Idade Média, o Reino da Hungria era considerado um centro do cristianismo ocidental. De fato, as fronteiras orientais e meridionais do país em muitos momentos as fronteiras do ocidente. Isso é comprovado pelo fato da Hungria ser a região fronteiriça da construção de igrejas romanas e góticas: as catedrais de São Martinho, de Bratislava (em húngaro Pozsony) e Santa Isabel em Kosice (Kassa), assim como os templos Nagyboldogasszony (de Nossa Senhora de Buda), São Miguel, em Cluj (Kolozsvár) e a Igreja Negra de Brasov (Brassó), que continuam sendo, até os nossos dias, a prova da expansão da civilização ocidental no oriente. A arquitetura, a pintura e a escultura medieval húngara surgiram em grande parte por iniciativa eclesiástica, exercendo um papel considerável nas ordens monásticas, principalmente os beneditinos e os cistercienses, uma vez que o poder real deixou de legado importantes marcos arquitetônicos em Esztergom, Székesfehérvár e Buda.

O Estado húngaro medieval, apesar do indubitável crescimento, de vez em quando teve que enfrentar crises muito graves, em geral como conseqüência de ataques de potências que atacavam pelo leste, muitas vezes destruindo os êxitos alcançados. Dessa forma, as tropas mongóis (tártaras), que no século XIII invadiram a parte oriental da Europa e em 1241 derrotaram o exército do rei Béla IV na batalha de Muhj, destruíram quase por completo o país, derrubando inclusive o rei, que depois de seu regresso, praticamente se viu forçado a realizar com sucesso uma “segunda fundação da pátria”. No século XV surgiu na fronteira um novo inimigo, mais ameaçador do que todos os outros: o Império Turco Otomano, que se expandia com enormes forças militares. Nosso excelente estrategista, János Hunyadi, conseguiu deter essa expansão por muitas décadas, infligindo uma derrota histórica aos turcos, em 1456, na cidade de Nándorfehérvár (atual Belgrado). Graças a essa vitória, que na realidade livrou para sempre a Europa cristã da expansão turca, o filho de Hunyadi, Mátyás (Matias), instalado no trono real, só entrou em guerra com os turcos em conflitos menores, tentando ao mesmo tempo construir um império no ocidente para juntar força suficiente para usar contra os turcos.

O Reino da Hungria, situado no ocidente do cenário mundial, se apoiava sobre bases econômicas sólidas (o país era um dos centros da mineração de metais preciosos na Idade Média e a renda do rei húngaro era do mesmo nível que o rei da Inglaterra), estabelecendo uma organização estatal duradoura e uma rica cultura. São prova disso não só os numerosos e belíssimos monumentos da arquitetura, pintura e literatura medieval húngara: os códices no idioma húngaro (grande parte lamentavelmente destruída pelas guerras) formam uma importante biblioteca virtual. Na segunda metade do século XV, durante o bem sucedido reinado do rei Matias, nos palácios de Buda e de Visegrád se estabeleceu uma valiosa oficina da cultura renascentista européia. A influência do Renascimento italiano deixou suas marcas na Hungria muito antes que nos outros países da Europa central. As magníficas obras da biblioteca de Matias em Buda, os chamados Corvinas, seguem sendo, desde aquela época, peças mundialmente apreciadas da arte renascentista.

A Hungria não somente assimilou a cultura cristã ocidental, mas também defendeu seus valores com grande sacrifício e em violentas batalhas, sendo submetida mais de uma vez ao inimigo vindo do leste. Constitui-se num evento trágico para os húngaros, quando em 1526, o sultão turco conseguiu vencer o rei húngaro no campo de batalha de Mohács. Em 1541 também foi para as mãos dos turcos a capital do reino, Buda, e o país se dividiu em três partes: nas zonas ocidentais assumiu o poder a Casa dos Habsburgo, o centro do país foi dominado pelos turcos, enquanto que nas regiões orientais, na Transilvânia foi estabelecido um principado húngaro independente, como último centro da continuidade nacional. A invasão turca durou 150 anos, e foi somente depois de 1686, através da reconquista de Buda, que pouco a pouco a organização estatal do Reino da Hungria foi restabelecida.

Após as derrotas sofridas ao longo da história, a cultura nacional, e, sobretudo a literatura, serviram para reanimar a vitalidade dos húngaros. Contribuiu para fomentar essa força vital a Reforma de Lutero e de Calvino, que chegaram também em solo húngaro, promovendo o desenvolvimento ulterior da cultura da língua nativa. Mas também se juntou a isso a renovação católica, que igualmente reconheceu a importância da cultura nacional. Na época das guerras turcas e das lutas da Reforma, o espírito criador húngaro se manifestou na obra de Bálint Balassi, um dos expoentes mais originais da poesia renascentista húngara; de Péter Pázmány, fundador de uma universidade e que realizou a contra-reforma católica de Miklós Zrínyi, grande estrategista e autor da epopéia barroca “Szigeti veszedelem” (A ameaça de Sziget). A conquista turca e o governo Habsburgo consideravam a Hungria como zona fronteiriça do império, reprimindo as aspirações húngaras pela independência, representadas em primeiro lugar pelos príncipes da Transilvânia: István Bocskai, que se voltou contra os monarcas Habsburgo, Gábor Bethlen e Ferenc Rákóczi, eleito príncipe dos húngaros. Devido ao desmembramento do país e a perda de sua independência, as instituições da cultura ocidental não puderam se desenvolver plenamente. De maneira que, diferente dos séculos anteriores, o país não teve uma corte real própria, que nos outros países europeus era um importante organizador do progresso cultural. A cultura nacional se escondia na modesta corte da Transilvânia, nos palácios da alta nobreza, nas aulas episcopais, nas escolas eclesiásticas, nos conventos e nas paróquias. A literatura e a causa da nação seguiam estreitamente ligadas, o erudito enciclopedista da Transilvânia, János Apáczai Csere, proclamou o programa das escolas em línguas vernáculas, e os memorialistas da Transilvânia ilustraram de forma pessoal os acontecimentos históricos. As memórias do príncipe Ferenc Rákóczi II serviram como testemunho das lutas internas de Kelemen Mikes, renovador da prosa húngara, que vivia na corte do príncipe e foi obrigado a se exilar na Turquia junto com seu senhor.

Ao acabarem as guerras turcas e terem sido apaziguadas as lutas de independência, no século XVIII, houve na Hungria décadas de um desenvolvimento relativamente tranqüilo. Nesse caso o papel da rainha Maria Teresa foi muito importante, pois devido a sua política tolerante e o carinho que sentia pelo povo, foi a primeira descendente dos Habsburgo a conquistar a simpatia dos húngaros. Mesmo tendo sofrido enormes devastações, o país voltou a ser reconstruído: as construções barrocas da época mudaram a antiga imagem da Hungria. Foram erguidos palácios, catedrais, bibliotecas e escolas, e em pouco tempo a cultura literária também renasceu. Os jovens húngaros que prestavam serviço militar na corte vienense foram os primeiros a conhecer os ideais da ilustração francesa e alemã, e por iniciativa deles ganharam força as letras e a literatura científica em língua vernácula. Nesse período o país, como um reino que dispunha de corpo estatal próprio e funcionava de maneira autônoma, formava parte do Império Habsburgo e sua independência não era total. José II, o popular filho da rainha, desejava estabelecer uma monarquia centralizada, e ainda que tenha introduzido reformas de grande valor no âmbito social e religioso, não tinha a intenção de cumprir as aspirações dos húngaros quanto aos temas culturais e do idioma.

Seu sucessor eliminou inclusive as reformas iniciadas por José II. O movimento republicano húngaro, surgido inspirado no exemplo francês e na revolução parisiense de 1789, aspirava mudanças muito radicais e não alcançando nenhum êxito: seus dirigentes foram presos ou mortos.

Por conseguinte, os ideais da independência nacional e das transformações sociais se organizaram no campo da literatura, inspirados nos exemplos do liberalismo ocidental. Passado o tormentoso período de dominação turca, a vida intelectual húngara voltou a encontrar a corrente principal do desenvolvimento cultural ocidental. Seus representantes eram o ex-prisioneiro Ferenc Kazinczy, que se dedicou à renovação moderna do idioma húngaro, Mihály Csokonai Vitéz, que em sua breve vida introduziu o mundo sentimental da poesia rococó e Dániel Berzsenyi, em cujas formas poéticas neoclássicas já aparecia o universo visionário e filosófico do romantismo.

A primeira metade do século XIX foi o período de maior sucesso tanto da historia como da literatura húngara. As dietas húngaras e a transformação social da época assentaram as bases do fim da servidão da gleba e da edificação da sociedade burguesa; o húngaro se converteu no idioma oficial da vida estatal e a cultura magiar ficou cada vez mais aberta às outras culturas das nações ocidentais. O conde István Széchenyi, dotado de uma vasta cultura ocidental e que se guiava principalmente pelos exemplos ingleses, empregou todos os seus esforços na construção econômica e política da chamada “era das reformas” húngaras. Como resultado do seu trabalho, foi criado a Academia de Ciências da Hungria, a Ponte das Correntes, que uniu Buda e Peste, iniciou-se a edificação da rede ferroviária húngara e a regulação dos rios Danúbio e Tisza.

Na literatura húngara, os representantes do romantismo nacional evocaram o passado heróico do país, professando o ideal da liberdade e ampliando os horizontes nacionais para as perspectivas européias. As figuras mais destacadas dessa época foram o poeta e político Ferenc Kölcsey, autor do hino nacional, József Katona, criador do drama nacional, Mihály Vörösmarty, que se expressava através da linguagem mítica do grande romantismo europeu, Miklós Jósika, autor de novelas históricas populares e József Eötvös, grande divulgador dos ideais do liberalismo.

A aspiração pelas reformas sociais e políticas despertou o interesse pela vida e cultura dos camponeses, e dentro de pouco tempo a poesia já se inspirava na linguagem e nos costumes populares, indo de encontro aos anseios do povo. Os clássicos desse populismo poético foram Sándor Petőfi e János Arany, cujas trajetórias são exemplares. Ambos fizeram parte dos acontecimentos da revolução ocorrida em 15 de março de 1848, que visava trazer para o solo húngaro o triplo lema da revolução francesa de 1789. A revolução buscava conquistar a independência total do país frente ao império austríaco e assegurar a igualdade de direitos entre os cidadãos, além do desejo de estabelecer um Estado burguês moderno. O líder dessa revolução foi Lajos Kossuth, excelente orador e pensador político, respeitado também fora do país. Na revolução em que não foi derramada uma única gota de sangue, seguiu-se uma sangrenta guerra de independência; a corte vienense instigou primeiramente contra os húngaros parte das minorias nacionais da Hungria, em seguida interveio com o uso da força militar, mas só conseguiu derrotar totalmente os húngaros unindo forças com o Estado mais autocrático da Europa na época, a Rússia dos czares. Nessa luta de legítima defesa Petőfi sacrificou sua vida e registrou os momentos dolorosos dessa guerra pela independência em sua poesia elegíaca, Arany.

Após essa derrota, recaiu novamente à cultura nacional, particularmente aos escritores, o papel de manter desperta a vontade de viver da nação e trazer novos ideais aos húngaros desiludidos. Os poemas épicos de János Arany evocavam as páginas mais gloriosas da história húngara, Mór Jókai nos seus romances escreveu verdadeiros poemas heróicos acerca do amor à liberdade dos húngaros, Zsigmond Kemény em seus romances históricos e ensaios políticos manifestou a necessidade do autoconhecimento nacional e a adoção de uma política realista, enquanto que Imre Madách representou a visão mítica da história e do futuro de toda a humanidade, em seu drama “A tragédia do homem”. Desempenhou um papel semelhante a música nacional: as óperas de Ferenc Erkel e a música de Ferenc Liszt (e também sua atuação pessoal) serviram igualmente para fortalecer a identidade nacional.

Os húngaros conseguiram resistir ao grande peso da opressão, e como resultado dos esforços do moderado político da reforma, Ferenc Deák, do monarca Habsburgo que queria fazer a paz com a nação, de Francisco José I e de sua esposa, a rainha Isabel, que sentia um amor sincero pelos húngaros, em 1867 foi firmado o compromisso austro-húngaro e formou-se a Monarquia Austro-Húngara, com sede em Viena e Peste-Buda. Na conturbada história dos húngaros a era do progresso ressurgiu, uma vez que o peso do país dentro da monarquia crescia paulatinamente, e o ex-revolucionário húngaro, o conde Gyula Andrássy, representou a Monarquia no Congresso de Berlim de 1878, realizado para regular as relações entre as grandes potências européias.

Ao longo de quase meio século até o inicio da primeira guerra mundial, houve uma forte transformação burguesa na Hungria, com o rápido desenvolvimento da indústria e comércio, o término da construção do sistema ferroviário e o estabelecimento de instituições de constitucionalidade parlamentar. No entanto, ao mesmo tempo em que o país se desenvolvia, tinha que enfrentar problemas de grave natureza. Quase metade da população da Hungria era formada por minorias (alemães, romenos, eslovacos, sérvios e rutênios), e esses povos exigiam direitos autônomos que o governo húngaro não estava disposto a conceder. Além disso, o país necessitava com urgência de reformas sociais, pois seguia em vigor o sistema latifundiário e as massas empobrecidas de camponeses, os operários das grandes indústrias e as camadas burguesas e intelectuais cada vez mais fortes reivindicavam transformações radicais.

No entanto, os governos conservadores húngaros eram contra qualquer tipo de reforma. Os poemas pessimistas de Gyula Reviczky e János Vajda, assim como os romances irônicos de Kálmán Mikszáth, retratavam bem esse período, cada vez mais rico e também abalado por conflitos. Uma vez mais, ficou a cargo do setor intelectual representar os ideais do desenvolvimento livre, do compromisso com as nacionalidades e a transformação democrática. No início do século XX, com a renovação nacional e cultural, surgiu um movimento de escritores em torno da revista “Nyugat” (Ocidente), que deu um novo significado a orientação ocidental tradicional da literatura húngara, ao incorporar as grandes correntes intelectuais e artísticas do fim do século. A poesia mítica de Endre Ady, a obra representativa de elevados princípios morais de Mihály Babits, a perspectiva européia de Dezső Kosztolányi, o culto à beleza de Arpád Tóth e o lirismo de Gyula Juhász, que tratava de conflitos espirituais, fizeram com que se expressasse essa modernidade européia e húngara ao mesmo tempo, como nos romances descritivos da realidade de Zsigmond Móricz e o mundo de sonho de Gyula Krúdy, que a sua maneira conseguiu os mesmos resultados que os inovadores europeus ocidentais no gênero do romance.

Também participaram da renovação intelectual nossos compositores e artistas plásticos, entre eles Béla Bartók e Zoltán Kodály, que incluíram as tradições da música antiga e popular húngara na cultura musical moderna, ao mesmo tempo em que József Rippl-Rónai, Tivadar Csontváry Kosztka e Lajos Gulácsy criaram uma pintura genuína com a marca dos ideais internacionais do impressionismo, simbolismo e modernismo. Ao mesmo tempo, essa pintura húngara ficou intrinsecamente ligada à arte européia, com Viena e Budapeste sendo os principais centros da arte modernista (Secessão).

A renovação intelectual ocorrida na Hungria, no começo do século XX, promoveu uma “nova era de reformas”. No entanto, os planos reformistas não produziram resultados porque em 1914 começou a primeira guerra mundial, onde os húngaros, juntamente com os demais povos da Monarquia, combateram até o final sendo derrotados pela Alemanha imperial. A derrota sofrida na guerra não permitiu a reorganização moderna e a transformação federal do império austro-húngaro, que se desintegrou incluindo a antiga Hungria. Por trás da transformação democrática e burguesa, que ocorreu principalmente em Budapeste no outono de 1918, o golpe militar comunista de 1919, liderado por Béla Kun, causou comoção social junto com a contra-revolução “branca”, encabeçada pelo almirante Miklós Horthy.

A vida econômica húngara se reergueu com muitas dificuldades das perdas sofridas, e o sistema político implantado durante a regência de Miklós Horthy, não implementou nenhum tipo de modernização social, pelo contrário: manteve os privilégios das classes dominantes tradicionais. Ainda assim, nos anos 30 foram produzidos alguns resultados da modernização econômica e cultural, esses últimos graças ao ministro da cultura, o conde Kunó Klebelsberg, que atuou seguindo um conceito bem planejado. No entanto, a classe dirigente política e o povo húngaro não aceitaram as injustiças do pacto de paz de Trianon, e reagiram rapidamente contra a política de repressão de que foram vítimas três milhões de húngaros. Por conseguinte, a política do país num primeiro momento não se preocupou com a necessária modernização da sociedade, dedicando-se com mais afinco na tentativa de fazer uma revisão territorial dos agravos do tratado de Trianon.

Naquelas circunstâncias históricas desfavoráveis, a literatura novamente representou os ideais das reformas sociais e do progresso europeu. O círculo da revista “Nyugat” (Ocidente): Mihály Babits, Dezső Kosztolányi, Frigyes Karinthy, Milán Füst, Jenő Tersánszky Józsi e a nova geração de escritores que se juntou a eles: Lőrinc Szabó, Sándor Márai, Sándor Weöres, Miklós Radnóti, assim como Károly Kós, Sándor, Reményik, Lajos Áprily, Jenő Dsida e Zoltán Jékely da Transilvânia se manifestaram em favor do humanismo europeu ante a barbárie da época, tanto dos movimentos de extrema-direita como os de extrema-esquerda. Lajos Kassák, destacada personalidade criadora da vanguarda húngara, impulsionava a transformação com seu ímpeto rebelde, enquanto que Sándor Sík, representante da espiritualidade católica, defendia os valores cristãos universais. Os representantes da esquerda literária: Attila József, Lajos Nagy e Tíbor Déry buscavam uma nova harmonia humana dentro da ordem de uma sociedade comunitária. Uma das tendências intelectuais mais fortes da época foi formada pelos chamados “escritores do povo”, que se encarregaram da poética de um realismo literário modernizado.

Enquanto esperava reverter os agravos de Trianon, a Hungria se converteu paulatinamente em aliada da Alemanha e da Itália, e com a ajuda delas, pôde em parte recuperar os territórios perdidos: em 1938 a região habitada por húngaros da chamada “Parte Alta” (Felvidék), em 1939 a “Subcarpática” (Kárpátalja), em 1940 a Transilvânia do Norte e a “Terra dos Seclers” (Székelyföld), e em 1941 a região de Bácska. Entretanto, essas vitórias comprometeram a Hungria com as “potências do eixo”, de maneira que em 1941 a Hungria também se tornou uma parte beligerante, e a maior parte do seu exército pereceu nos combates ao longo do rio Don, no inverno de 1942-1943. Nem mesmo o conde Pál Teleki, que se sacrificou com a própria vida, ou Miklós Kállay, que desenvolveu uma política muito sóbria e tática, conseguiram livrar o país dos sofrimentos da guerra.

O setor intelectual enfrentou com muita disposição a política bélica, proclamando uma “resistência intelectual”. As personalidades mais destacadas da literatura húngara também se opuseram a invasão hitlerista ocorrida na primavera de 1944, que enviou para campos de concentração a grande maioria dos judeus húngaros. Nossa literatura combateu a violência e a guerra, e quando a paz retornou, pôde desempenhar novamente um importante serviço de renascimento intelectual e moral do país. Durante o período democrático que durou apenas três anos, surgiu uma rica vida literária, e talentosos escritores jovens se uniram às gerações anteriores: tornaram-se os sucessores do movimento da revista “Nyugat” os poetas János Pilinszky e Ágnes Nemes Nagy e os escritores Géza Ottlik, Iván Mándy e Magda Szabó, que se juntavam ao grupo popular de László Nagy, Ferenc Juhász e István Kormos.

A ditadura comunista estabelecida com apoio soviético não somente acabou com os anseios pela independência e a criatividade do povo húngaro, mas também com a liberdade do escritor. Dezenas de milhares de pessoas foram presas ou deportadas para campos de trabalho forçado, e a tirania de Mátyás Rákosi destruiu quase por completo a estrutura mental da sociedade. Essa ditadura foi derrubada por alguns dias pela revolução húngara de 23 de outubro de 1956, em cuja fonte de inspiração também estava os escritores. A insurreição começou com uma enorme manifestação da juventude universitária, e em seguida formou-se uma milícia armada, que com a intervenção das tropas soviéticas, se converteu em uma luta pela independência, onde tiveram papel central os operários jovens e os intelectuais. O êxito temporal da revolução colocou no governo Imre Nagy, líder da ala reformadora do partido comunista, e que apoiava sinceramente as reivindicações revolucionárias: o governo revolucionário restabeleceu o pluripartidarismo, aboliu a Autoridade de Defesa do Estado, a organização terrorista de segurança interna, e anulou o Pacto de Varsóvia, que o governo soviético havia imposto ao país. A revolução dos húngaros e sua luta de independência contra a invasão estrangeira foram derrotadas pela força militar soviética. O novo governo dirigido por János Kádar foi imposto pela direção do partido soviético. Esse novo regime voltou a utilizar os procedimentos da ditadura terrorista anterior até a chamada “ditadura branda”, introduzida nos anos 70. Devido ao fracasso da revolução, muitos foram mortos na Hungria, e centenas de escritores foram presos, entre eles Árpád Göncz, que já foi presidente da República da Hungria. A cena intelectual demorou a ressurgir, mas no fim dos anos 70 apareceu uma intelectualidade independente, e nas assembléias da Federação de Escritores Húngaros podia-se encontrar uma crítica social de oposição.

Nesse período exerceram sua atividade grandes gerações da literatura húngara. Estiveram a serviço da renovação permanente aqueles escritores, cuja obra se desenvolveu após 1956. Na poesia encontramos Sándor Csoóri, Ottó Orbán, Dezső Tandori, István Ágh e György Petri; na narrativa Miklós Mészöly, Tibor Cseres, Ferenc Sánta; no gênero dramático István Örkény e depois Péter Esterházy y Péter Nádas assentaram as bases da narrativa pós-moderna húngara, sem falar sobre Imre Kertész, ganhador do Nobel de Literatura de 2002. Autores de talento criador refletiram a vida, os problemas e as esperanças dos húngaros confinados à condição de minorias, entre eles o narrador e dramaturgo András Sütő e os poetas Sándor Kányádi e Domokos Szilágyi. Mesmos nos anos da ditadura, a literatura húngara sempre esteve a serviço da continuidade da vida nacional, representando os valores da cultura européia e desempenhando um papel dirigente na transição democrática no final dos anos 80.

A partir de meados dos anos 80, no cenário literário, entre os economistas reformadores e no âmbito da “oposição democrática”, publicadora de “samizdat” (publicações clandestinas), se fortaleceram os movimentos da intelectualidade de oposição e independente, e como conseqüência da crise generalizada do império soviético, nessa época desencadeou-se o processo de mudança do sistema político, ou seja, a democratização. Como resultado, formaram-se novamente os partidos históricos: o Partido dos Pequenos Proprietários e o Partido Democrata Cristão. Contudo, ganharam muita popularidade as novas agremiações políticas: o Foro Democrático Húngaro, a Aliança dos Democratas Livres e a Federação de Jovens Democratas. Com a dissolução do Partido Operário Socialista Húngaro, foi criado o Partido Socialista Húngaro. Nas eleições pluripartidárias de 1990, formou-se um governo de centro-direita com József Antall, e Árpád Göncz foi eleito presidente da república. De acordo com a alternância política, em 1994 foi eleito um governo de centro-esquerda, com Gyula Horn como presidente, enquanto que em 1998, Viktor Orbán, de centro-direita foi eleito. Foram estabelecidas na Hungria as instituições do Estado de direito democrático, e em 1999 o país se tornou membro da OTAN, integrando-se alguns anos depois na União Européia.

Mudou também consideravelmente a situação dos húngaros que vivem nos países vizinhos. Os 1.8 a 2 milhões de húngaros que vivem no território da Romênia (na Transilvânia histórica, no Partium e na região de Bánság), os 600 mil que vivem na Eslováquia, os 200 mil da região Subcarpatiana (pertencente a Ucrânia) e os 300 mil em Voivodina, na Sérvia (que no total somam aproximadamente três milhões), estando livres da política repressiva do regime comunista, aspiram em todos esses lugares estabelecer seu próprio sistema institucional político e cultural. Em todas as regiões húngaras criaram-se organizações de representação política, que desempenham papéis parlamentares e em vários lugares também governamentais, além da criação de numerosas escolas húngaras, organizações sociais, civis e eclesiásticas e instituições culturais. Não obstante, todas elas têm de enfrentar a ideologia do Estado-nação e o estadismo, que ainda prevalecem hoje em dia.

Também mudou a situação da emigração ocidental húngara, que tradicionalmente tem desempenhado uma missão nacional; os húngaros que vivem no ocidente já podem manter livremente relações com sua pátria natal e suas instituições.

Essa revisão geral dos séculos da história e da literatura húngara pode nos dar importantes lições. Em primeiro lugar, que a literatura húngara sempre fez parte da corrente das literaturas européias, representando não só os ideais europeus tradicionais: a liberdade individual e a solidariedade coletiva, mas também reconhecendo o trajeto histórico da literatura européia, já que sempre buscou inspiração nos seus ideais nas tendências intelectuais e artísticas ocidentais e sempre contribuiu para o desenvolvimento da cultura européia. A outra grande lição reside em que nossa literatura sempre esteve entrelaçada com a vida, as aspirações e a história da nação. De acordo com a história, os conceitos de nação e literatura, ou de nação e cultura, nos dizem respeito de maneira dialética: de um lado, se encontra a luta histórica de uma comunidade humana por sua sobrevivência, e por outro lado, a continuidade histórica e um sistema de valores artísticos e literários de alto nível; e o que é visto por um lado como pensamento, forma poética e argumento épico, por outro é a luta incansável para que uma comunidade humana encontre seu lugar em sua terra natal e dentro da comunidade de nações, para que desfrute da possibilidade de conservar e apresentar ao mundo inteiro seus próprios valores intelectuais e morais. Essa dupla aspiração e missão intelectual poderá se manifestar em toda a sua plenitude no ano 2000, quando os húngaros comemoram e irão expor ante a toda a comunidade das nações a obra histórica do rei São Estevão.

Texto de Béla Pomogáts – Tradução: Bruno de Freitas Santos Gonçalves – Fonte: Embaixada da República da Hungria em Brasília